Ontem, cheguei em casa depois de trabalhar, comprei umas Stellas e um macdonald, encontrei a Naiá no Skype, minha nova mesa de bar do momento, e partimos pra uma daquelas discussões megalomaníacas, passando por política, religião, IBM, etc, etc, e só não falamos de futebol porque esse é definitivamente um assunto que não nos pertence. Em quase 6 horas, resolvemos a crise do capitalismo e criamos as bases do que seria uma nova religião.
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E falamos de amor, claro. O que acontece com o amor? Porque as pessoas não se encontram mais?
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Explico: a Naiá acabou de começar um relacionamento, com um moço que ela conheceu em um desses sites de relacionamento. E a Naiá, longe de ser exceção entre os meus conhecidos, é só mais um exemplo de alguém que conheceu outro alguém na internet e que a coisa deu super certo.
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Não é preconceito, não mesmo; eu só acho muito estranho. Aconteceu com um dos meus irmãos, aconteceu também com mais algumas amigas minhas, eu sei que a coisa pode dar certo, e entendo como a coisa pode dar certo: nesses sites se encontram os profiles de gente que busca exatamente o mesmo que você, e assim a coisa fica claramente mais fácil: a gente pula aquela parte de interagir com o outro, sem saber se ele ou ela está afim do mesmo que você, sem saber se ele ou ela gosta dos mesmos filmes, sem saber qual é a posição política do sujeito, a gente pula tudo isso. A internet faz esse trabalho pra gente.
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Não acho também que isso seja uma coisa ruim, ao menos não por si só. Antes da internet, também existiam agências de relacionamento que faziam um trabalho bastante parecido com o desses sites. Mas não tinha tanta gente procurando como tem agora. E mesmo nos primórdios da internet, não era tanta gente assim. Buscar uma companhia na internet ainda era tomada como uma medida um tanto quanto desesperada, o "certo" ainda parecia fazer como "antigamente", a troca de olhares, as aproximações lentas e progressivas, tipo Pequeno Príncipe e a Raposa. Na verdade, nada do que existe na internet é novo, ou foi inaugurado por ela. Toda a internet, no que concerne a relacionamentos, são construções sociais espelho das construções sociais do mundo real; a pedofilia que existe na internet é a mesma do mundo real, o tráfico de drogas, a prostituição, as relações de amizade, de trabalho, de amor ou familiares. Não é nada diferente, não é nada novo, não é nada senão um espelho.
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Se a internet não mudou o mundo, e não mudou mesmo, só fez botar no mundo uma quantidade astronômica de informações, o mundo mudou. E mudou muito, muito rápido. Se séculos atrás, o vinho e a cerveja eram exclusivamente artesanais, depois da indústria passaram a existir aos montes, e então a gente tem a invenção do alcoolismo, porque ninguém era alcóolatra no século XV, por uma simples razão: não existiam bebidas alcóolicas o suficiente para tornar possível a enfermidade. Se antes os fumantes faziam seu próprio cigarro, e os mais velhos têm uma habilidade monstruosa de juntar papel, tabaco e chupar cana ao mesmo tempo, hoje a gente tem os cigarros já prontos. Cada vez mais, tudo vem mais rápido. A comida vem mais rápido, o pagamento das contas a gente faz pela internet, em meia dúzia de cliques, a passagem aérea a gente imprime em casa. A gente tem skype, ou se não é pelo skype, é pelo telefone, que funciona tão bem entre ligações internacionais como as locais. Toda vez que eu ligo pro meu pai (69), ou quase toda vez, ele me pergunta: "você não está em São Paulo, está?", porque ele simplesmente não acredita que a ligação entre o Canadá e o Brasil possa ser tão boa. Porque meu pai conheceu um mundo quando as ligações internacionais eram coisas super complicadas, caras, demoravam, e a qualidade era péssima.
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O amor também mudou. Também se tornou mais rápido, ou a gente é que transpôs a expectativa de rapidez que a gente alcançou pra tudo, pro amor também. Já li uma dezena de artigos falando sobre o efeito de Hollywood nas relações contemporâneas. A idéia é a de que somos bombardeados por toda a nossa vida com filmes de amor, filmes de duas horas, aonde tudo se desenvolve em duas horas. Ou seja, tudo é muito rápido, e, inconscientemente, absorvemos a idéia de que é assim que tem que ser: rápido. Se é amor, é rápido. Se é amor, nunca é sofrimento. Se é amor, tem que ser como em um filme de Hollywood. Ou então, não é amor.
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Mas esse amor de Hollywood é o mesmo amor romântico do Goethe. Tem muito mais a idéia de alma gêmea, de encontro cósmico, de sentimentos e de paixões do que a idéia de um simples contrato burguês. A idéia de amor pra vida inteira, ou ainda do que seja eterno enquanto dure, porque ninguém se casa (considerando, claro, aqueles que se casam por amor) pra se separar, mas hoje todo mundo se casa considerando a possibilidade de que, se não der certo, o divórcio é uma solução possível. O amor romântico não considera essa possibilidade.
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O amor romântico acredita nele mesmo, e só nele mesmo. O amor romântico se pressupõe pra toda a vida, aconteça o que acontecer, venha o que vier. Não importa a quantidade de tempo que leve para ele se realizar, ele tem a vida inteira, e ainda que ele não se realize efetivamente falando, ele existe. E o que eu vejo hoje é que todo mundo, ou muita gente, busca ainda esse tipo de amor. Até aí, nada de errado, nada mesmo, até o ponto quando esperamos que tudo vai se resolver em duas horas. Até quando a gente acredita que um amor só é amor quando vem no formato de um filme de Hollywood.
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Qualquer pessoa de 30 anos, ou mais, que está solteira tem a mesma sensação, all over the world: mas todos os meus amigos estão casados, como eu vou conhecer alguém?. Tem cada vez mais gente no mundo, e cada vez mais gente pensando exatamente isso, ao mesmo tempo. Porque essas pessoas não conseguem se encontrar? Se boa parte dessas pessoas procuram o amor romântico, procuram o amor pra vida inteira, se elas estão dispostas a se doar e a receber, porque elas não conseguem se encontrar?
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Então o sujeito solteiro, em busca do amor romântico, resolve sair a noite. O sujeito que resolve sair a noite já sabe, de antemão, que, caso ele encontre alguém, até pode ser que role alguma coisa, mas que provavelmente o que rolar não vai evoluir dentro de um relacionamento mais estável, que é o que o sujeito quer. É um consenso. E eu não entendo, porque, novamente, se boa parte das pessoas estão em busca do amor romântico, porque elas não conseguem se encontrar? Porque existe esse consenso que tudo o que acontecer na noite é o one-night-kind-of-thing? Porque não dá pra conhecer ninguém num bar. Conhecer, conhecer de verdade. É pouco tempo, a música pode estar alta, o álcool no sangue, não dá pra desenvolver muito mais. Então, aonde é que as pessoas podem se conhecer? Se cada vez se trabalha mais, se ninguém via viajar sozinho, se as pessoas ficam em casa lamentando a sua solidão e se todo mundo destina os poucos lugares aonde seria possível um amor acontecer ao one-night-kind-of-thing?
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Mas a cada dia se morre um pouco a idéia do "deixar acontecer". De viver um dia após o outro, encontrar alguém, conversar, encontrar pouco a pouco, dia a dia, coisas em comum, discordâncias, afetos e carinhos. Alguns cada vez mais com fobias de relacionamento, com medo de que tudo aconteça "rápido demais", e que eles não dêem conta de acompanhar. Mas esses também buscam o amor romântico. Outros, cada vez mais querendo provas imediatas de um amor que sequer teve tempo hábil de se construir, porque esses acreditam que o amor é instantâneo, e precisa ser comprovado, porque num mundo de fast food, se compra muito coelho por lebre. Todos buscam o amor romântico, mas ninguém mais abre a porta, ninguém mais sabe como fazer, como esperar ou como agir, e se fica esperando eternamente por um final hollywoodiano feliz, como se alguém, que não nós mesmos, escrevêssemos os roteiros das nossas histórias.
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Então vem a internet, esse meio de juntar todos esses solitários, que não sabem mais como fazer, e não é apenas que essas pessoas não sabem, é que nos foi tirado também os espaços sociais reais aonde o "deixar acontecer" era possível. E vem tudo pronto: nos sites, já se sabe de antemão os filmes que ela mais gosta, os melhores livros lidos, a profissão, os hobbies, os lugares que a pessoa gosta de freqüentar, as músicas preferidas, o que a pessoa espera e como ela vê o mundo, o que ela pensa sobre religião e política, qual o time de futebol do coração, o facebook, o flirck, o skype, o msn, o telefone fixo e o celular. Se paga uma certa quantia, em dinheiro, para esses sites, e eles fazem o "deixar acontecer". Antes mesmo de se conhecerem, já viram todas as fotos de infância do sujeito, as fotos da formatura na faculdade, já viram os perfis de todos os amigos do trabalho, e quizá já esbarraram, virtualmente, até em alguns ex's do parceiro. Então as pessoas se conhecem, se encontram pela primeira vez, e já sabem que foram feitos um para o outro.
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Novamente, eu não acho que isso seja ruim por si só. Mas não sei em que medida a necessidade de se pular o "deixar acontecer", a necessidade de provas imediatas de que o amor é real, a expectativa de que tudo seja tão rápido e pleno como em um filme de Hollywood, em que medida tudo isso encontra refúgio na internet, e mascara problemas bem más sérios.
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Se o mal do XX era a solidão, o mal do XXI é a ansiedade pelo fim da solidão, a exigência da rapidez. Se vamos assim, o do XXII certamente vai ser o suicídio coletivo, e no XXIII nossos problemas acabarão.
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O amor também mudou. Também se tornou mais rápido, ou a gente é que transpôs a expectativa de rapidez que a gente alcançou pra tudo, pro amor também. Já li uma dezena de artigos falando sobre o efeito de Hollywood nas relações contemporâneas. A idéia é a de que somos bombardeados por toda a nossa vida com filmes de amor, filmes de duas horas, aonde tudo se desenvolve em duas horas. Ou seja, tudo é muito rápido, e, inconscientemente, absorvemos a idéia de que é assim que tem que ser: rápido. Se é amor, é rápido. Se é amor, nunca é sofrimento. Se é amor, tem que ser como em um filme de Hollywood. Ou então, não é amor.
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Mas esse amor de Hollywood é o mesmo amor romântico do Goethe. Tem muito mais a idéia de alma gêmea, de encontro cósmico, de sentimentos e de paixões do que a idéia de um simples contrato burguês. A idéia de amor pra vida inteira, ou ainda do que seja eterno enquanto dure, porque ninguém se casa (considerando, claro, aqueles que se casam por amor) pra se separar, mas hoje todo mundo se casa considerando a possibilidade de que, se não der certo, o divórcio é uma solução possível. O amor romântico não considera essa possibilidade.
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O amor romântico acredita nele mesmo, e só nele mesmo. O amor romântico se pressupõe pra toda a vida, aconteça o que acontecer, venha o que vier. Não importa a quantidade de tempo que leve para ele se realizar, ele tem a vida inteira, e ainda que ele não se realize efetivamente falando, ele existe. E o que eu vejo hoje é que todo mundo, ou muita gente, busca ainda esse tipo de amor. Até aí, nada de errado, nada mesmo, até o ponto quando esperamos que tudo vai se resolver em duas horas. Até quando a gente acredita que um amor só é amor quando vem no formato de um filme de Hollywood.
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Qualquer pessoa de 30 anos, ou mais, que está solteira tem a mesma sensação, all over the world: mas todos os meus amigos estão casados, como eu vou conhecer alguém?. Tem cada vez mais gente no mundo, e cada vez mais gente pensando exatamente isso, ao mesmo tempo. Porque essas pessoas não conseguem se encontrar? Se boa parte dessas pessoas procuram o amor romântico, procuram o amor pra vida inteira, se elas estão dispostas a se doar e a receber, porque elas não conseguem se encontrar?
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Então o sujeito solteiro, em busca do amor romântico, resolve sair a noite. O sujeito que resolve sair a noite já sabe, de antemão, que, caso ele encontre alguém, até pode ser que role alguma coisa, mas que provavelmente o que rolar não vai evoluir dentro de um relacionamento mais estável, que é o que o sujeito quer. É um consenso. E eu não entendo, porque, novamente, se boa parte das pessoas estão em busca do amor romântico, porque elas não conseguem se encontrar? Porque existe esse consenso que tudo o que acontecer na noite é o one-night-kind-of-thing? Porque não dá pra conhecer ninguém num bar. Conhecer, conhecer de verdade. É pouco tempo, a música pode estar alta, o álcool no sangue, não dá pra desenvolver muito mais. Então, aonde é que as pessoas podem se conhecer? Se cada vez se trabalha mais, se ninguém via viajar sozinho, se as pessoas ficam em casa lamentando a sua solidão e se todo mundo destina os poucos lugares aonde seria possível um amor acontecer ao one-night-kind-of-thing?
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Então as pessoas chegam aos 30, 30 e poucos, 40 anos, e declaram a morte do amor. E elas se esbarram, e elas conversam no trabalho, mas elas não se conhecem, ninguém mais abre a porta, parece que ninguém mais sabe como fazer. Todos carregados de des-amores, de angústias, de desejos, mas simplesmente incapazes de sorrir, de pedir um número de telefone, de convidar pra um café. Certa vez, num ambiente de trabalho, eu tomei coragem e pedi o número dele. Ele me deu, sob a condição que eu desse o meu também..
Mas a cada dia se morre um pouco a idéia do "deixar acontecer". De viver um dia após o outro, encontrar alguém, conversar, encontrar pouco a pouco, dia a dia, coisas em comum, discordâncias, afetos e carinhos. Alguns cada vez mais com fobias de relacionamento, com medo de que tudo aconteça "rápido demais", e que eles não dêem conta de acompanhar. Mas esses também buscam o amor romântico. Outros, cada vez mais querendo provas imediatas de um amor que sequer teve tempo hábil de se construir, porque esses acreditam que o amor é instantâneo, e precisa ser comprovado, porque num mundo de fast food, se compra muito coelho por lebre. Todos buscam o amor romântico, mas ninguém mais abre a porta, ninguém mais sabe como fazer, como esperar ou como agir, e se fica esperando eternamente por um final hollywoodiano feliz, como se alguém, que não nós mesmos, escrevêssemos os roteiros das nossas histórias.
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Então vem a internet, esse meio de juntar todos esses solitários, que não sabem mais como fazer, e não é apenas que essas pessoas não sabem, é que nos foi tirado também os espaços sociais reais aonde o "deixar acontecer" era possível. E vem tudo pronto: nos sites, já se sabe de antemão os filmes que ela mais gosta, os melhores livros lidos, a profissão, os hobbies, os lugares que a pessoa gosta de freqüentar, as músicas preferidas, o que a pessoa espera e como ela vê o mundo, o que ela pensa sobre religião e política, qual o time de futebol do coração, o facebook, o flirck, o skype, o msn, o telefone fixo e o celular. Se paga uma certa quantia, em dinheiro, para esses sites, e eles fazem o "deixar acontecer". Antes mesmo de se conhecerem, já viram todas as fotos de infância do sujeito, as fotos da formatura na faculdade, já viram os perfis de todos os amigos do trabalho, e quizá já esbarraram, virtualmente, até em alguns ex's do parceiro. Então as pessoas se conhecem, se encontram pela primeira vez, e já sabem que foram feitos um para o outro.
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Novamente, eu não acho que isso seja ruim por si só. Mas não sei em que medida a necessidade de se pular o "deixar acontecer", a necessidade de provas imediatas de que o amor é real, a expectativa de que tudo seja tão rápido e pleno como em um filme de Hollywood, em que medida tudo isso encontra refúgio na internet, e mascara problemas bem más sérios.
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Se o mal do XX era a solidão, o mal do XXI é a ansiedade pelo fim da solidão, a exigência da rapidez. Se vamos assim, o do XXII certamente vai ser o suicídio coletivo, e no XXIII nossos problemas acabarão.





