sábado, 28 de janeiro de 2012

sobre como a gente nasce e como a gente morre

Sozinho. Mas isso todo mundo sabe, o que eu não sei se todo mundo sabe, eu não sabia, por exemplo, que a gente sempre é só a gente, nada a mais e nada a menos. Não importa se está solteiro ou casado, não importa dormir com alguém ou dormir sozinho, quem dorme é a gente e quem sonha é a gente. Ter alguém ao lado pra dividir a vida, o dinheiro, os problemas, as alegrias ou até mesmo o amor, é só ter alguém ao lado. Não muda em nada a solidão de se existir.
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Eu sempre me senti muito sozinha, sempre tive muita inveja daqueles "casais perfeitos", daquela gente que nunca passa um mês solteiro na vida. Achava que a vida poderia ser mais fácil com alguém. Ao mesmo tempo, sentia um certo orgulho pela independência de ser sozinha, pela liberdade de não depender de ninguém pra tomar as minhas decisões. E é com certo estranhamento que me dou conta agora de que eu nunca soube viver a minha solidão, embora a tenha vivido, eu sempre esperava pelo dia que ela fosse passar. Pelo conto de fadas que nos libera de todos os problemas; a solidão foi o grande mal do século que eu nasci e eu não acredito que o XXI já tenha conseguido inventar algo pior. Não que a solidão seja ruim em si, mas ela pode doer e, de fato, dói muito às vezes. 
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E o mundo dos adultos é sempre duplo, mesa pra dois, quarto pra dois. Chegar aos 30 sem saber com quem se passará o resto da vida, a despeito do número de divórcios nunca diminuir, da onde eu vim, é pior que não ter emprego. E no caso da mulher, ainda é pior, porque se começa a pensar na possibilidade de maternidade, caso ela não seja um sonho cultivado desde a infância. A gente começa a pensar: "eu não preciso ser mãe, mas e se caso eu querer? como é que faz?". 
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E ainda tem a ordem natural das coisas. Tem a época do colégio, a época do curso de inglês, a época da natação, a época da faculdade, a época de morar fora, todo esse currículo classe média. O primeiro emprego, a primeira demissão, a época de cair de bar em bar procurando agulha no palheiro, o relacionamento aberto que você sempre soube que era furada. E tem a época de encontrar alguém, de casar. Faz parte do protocolo.
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Algumas pessoas se casam por amor, outras por conveniência, outras pelos dois, outras um pouco mais por um, um pouco mais por outro. Algumas pessoas se casam só pelo green card e acabam se apaixonando depois. Algumas pessoas casam apaixonadas e acabam grandes amigos. Mas todo mundo casa. Quando eu me achava gorda, feia, burra, horrível, eu pensava nisso, ninguém não casa. A não ser que a pessoa não queira casar, que a pessoa realmente não queira casar. Salvo esses casos, ninguém não casa. Todo mundo casa um dia, seja lá pelo que for. 
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E eu nem acho que esse protocolo seja assim tão monstruoso, apesar de eu achar todos os protocolos um tanto quanto monstruosos. Mas a grande mentira é o happy ever after. O dois em um, o todos os seus problemas serão resolvidos!. A gente é sempre a gente, e só a gente. E quem sabe da gente, é a gente. 
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Aos 18 o meu grande problema, que eu acreditava de verdade que era o maior problema que eu teria que enfrentar por toda a minha vida, era o vestibular. Não por ter que escolher uma carreira pra vida inteira, ou não tanto por isso, mas porque era difícil mesmo, caía matemática, física, química, aquele inferno todo. Eu sempre fui muito, muito ruim de matemática. E continuo sendo. Tudo culpa da professora Iara, aquela bruxa da quinta série. E então eu achava que, se eu passasse no vestibular, todo o resto seria fichinha. Sopinha no mel. 
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Aos 29, meu grande problema, que hoje eu acredito de verdade que vai ser o maior problema que eu vou ter que enfrentar nessa vida, é entender que ninguém vai viver a minha vida por mim. Que quem está ao meu lado está ao meu lado. Quem está dentro de mim continua sendo apenas eu mesma. Quem sabe de mim sou eu, quem pode resolver as minhas questões, os meus pequenos infernos, sou eu. Quem faz merda, sou eu, e quem tem que resolver as merdas, sou eu. Euzinha. 

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