Nada como a experiência imigrante, o espelho do outro, para se descobrir a própria identidade: basta um mês longe do Brasil pra eu despirocar e ouvir baião, coisa que eu raramente poderia fazer no Brasil. Além de muita saudade de pastel de feira, de caldo de cana, de pão francês com margarina molhado no café (café brasuca, claro, o melhor do mundo), arroz com feijão todos os dias e sem culpa, - todo (o resto do) mundo acha bizarríssimo o costume brasileiro de comer arroz com feijão (quase que) diariamente!, saudade do cheiro da Mata Atlântica (e sua beleza), saudade da praia, etc, etc, etc, sinto muita saudade também dos tapas espanhóis, dos Gaudis espalhados pela cidade, do sol de Barcelona (diferente e mais bonito que qualquer sol do mundo, mesmo no inverno), saudade do castellano, saudade das máquinas de vender cigarro, saudade das tabacarias em cada esquina, saudade do tabaco de liar, saudade do cheiro do mediterrâneo - Não permita Deus que eu morra sem que eu volte para lá.... Eu acho que a minha memória é mais do que tudo olfativa; quando sinto saudade de alguém, sinto MUITA saudade do cheiro da pessoa. Isso é normal? Sinto saudade de tantos cheiros... de todos os sentidos que eu tenho, o que eu mais gosto é o cheiro.
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Corta.
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Outro dia, dia desses, não sei aonde que eu li isso, só lembro que eu li, que os coqueiros NÃO são genuinamente brasileiros! Bom, tampouco o pão francês é, posto que o nosso tradicionalíssimo pão francês nasceu de tentativas de imitação, no começo do XX, da baguete francesa. Mas acho que nesse caso é como o carinha do Nine Inch Nails que disse que, depois de ter a sua música gravada pelo Jonnhy Cash, ele havia a perdido. Não poderia estar mais de acordo. Quem escuta Hurt na voz do Jonnhy Cash automaticamente se converte em uma pessoa melhor. O pão francês É brasileiro e se acabou, perdeu, playboy.
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Mas eu estava falando do coqueiro, que outro dia eu descobri que foi importado da África! Não me lembro exatamente o porquê, na verdade eu não me lembro do porquê, e nem sei se isso é uma coisa óbvia que todo mundo sabe, mas eu não sabia. Me sinto super brasileira quando vejo um coqueiro. E mesmo não sendo espanhola, me sinto super hispânica ao ler no menu: omelete espanhol. Não permita, Deus, que eu morra, sem comer de novo pastel de feira mais-brasileiro-impossível e omelete espanhol...
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Corta.
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Mas o que dizer da saudade, a grande contribuição da língua portuguesa para o mundo, a forma de se dizer, com um substantivo, o vazio que uma coisa que estava mas já não está mais provoca dentro da gente? Eu sinto meu sangue português toda vez em que derramo o pote de azeite em um pedacinho de pão e cada vez que a saudade parece que vai me enlouquecer.
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Eu sinto saudade. Inclusive do Sesc Pompéia, em São Paulo, aonde o vídeo abaixo foi gravado:
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Se a gente lembra só por lembrar / O amor que a gente um dia perdeu / Saudade inté que assim é bom / Pro cabra se convencer / Que é feliz sem saber / Pois não sofreu / Porém se a gente vive a sonhar / Com alguém que se deseja rever / Saudade, entonce, aí é ruim / Eu tiro isso por mim, / Que vivo doido a sofrer / Ai quem me dera voltar / Pros braços do meu xodó / Saudade assim faz roer / E amarga qui nem jiló / Mas ninguém pode dizer / Que me viu triste a chorar / Saudade, o meu remédio é cantar..
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