quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

pinguepongueando pelo mundo

Posso contar um segredo? Além de eu ainda não saber andar de bicicleta, (que por muitos anos foi o meu maior segredo ever), eu não sabia que em Montreal se falava francês até vir pra cá pela primeira vez, em 2009. Ou seja, eu não sabia que existia um estado francês dentro do Canadá, e que ele se chamava Québec. Montreal era pra mim até então a cidade que a Karina morava, e se falava inglês aqui, e a moeda era o dólar. Eu queria juntar dinheiro pra depois ir pra Europa, e imaginei que fosse mais fácil juntar dinheiro em um país de moeda forte; eu queria ir pra Portugal, e pesquisar a história da minha família. Antes de deixar o Brasil, eu até cheguei a fazer umas pesquisas de história oral com pessoas mais velhas da família, já que a minh avó, portuguesa, faleceu em 2002, ano que eu ingressei na faculdade de história, quando contava apenas 18 anos, e estava muito longe de ter a noção do quanto era importante aproveitá-la e fazer as perguntas certas. (Ninguém mais da minha família teve esse cuidado, obviamente. Thanks, folks!).
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Eu sabia que fazia muito frio aqui, mas como temperaturas como -20ºC estavam muito distantes de qualquer coisa que eu poderia imaginar, eu não pensava no assunto. Mas depois que essas temperaturas fizeram parte do meu cotidiano, depois de sentir o peso do inverno polar nas minhas costas, junto com os quilos e quilos de roupa, eu queria viver num país quente. Depois de aprender inglês, eu queria aprender outra língua. Depois do filme do Woody Allen eu queria conhecer Barcelona. 
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Obviamente, eu também não tinha idéia que Barcelona ficava dentro de um estado chamado Catalunha, e que lá as pessoas falavam catalão, e que catalão é uma língua totalmente diferente, eu conhecia o País Basco e olhe lá, nem sabia aonde ficava o troço, sabia que era dentro da Espanha, mas até aí, né? 
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E olha que eu sempre me achei uma pessoa que conhecia mais ou menos as coisas do mundo!
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Mas eis que eu nem sabia que o Brasil era um país tropical. Foi preciso voltar pra lá, sentir o cheiro da Mata Atlântica, subir e descer a serra o suficiente, passar uma tarde na cachoeira em Piracicaba, pra descobrir que aquele cheiro não era banal. Que o que faz um lugar tropical não é apenas a humidade e o calor, existe o componente humidade, o componente calor e o componente tropical. 
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Foi preciso voltar pro Canadá pra entender que não se pode voltar no tempo. Os mesmos lugares, as mesmas pessoas, o mesmo inverno, mas tudo diferente. O sistema de transporte que funciona, o ônibus que nunca atrasa, o metrô que nunca fica abarrotado de gente, e tudo bem se a gente esquece de trancar a porta a noite. 
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O Canadá é um país de engenheiros. Mesmo quem não é engenheiro, acaba calculando, respeitando, arquitetando, projetando. Mas isso, eu só entendi agora. Não é um país de artistas, de caos, de sensibilidades, ainda que muito bonito, ainda que poético. A viagem pelo inverno não deixa de ser uma viagem pelo nosso interior... e hoje eu vi no quintal um esquilo enterrando alguma coisa na neve. O Canadá é um país de esquilos construtores, que trabalham duro, que agüentam o frio, e que não têm muita paciência para confusões. Eles são rápidos e precisos. 
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O próximo destino é a França, país que compartilha com Portugal o mesmo animal-símbolo: o galo. O que eu sei da França? Que lá eles falam francês e que a Lettícia mora em Paris. A França pra mim é tipo o estado de São Paulo aonde todo mundo fala francês e aonde tem a Lettícia no meio. 
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Será que a França vai ser o último destino? Será que lá eu vou ser feliz? Será que lá eu vou descobrir a minha casa? Vou me apaixonar pela sua língua, pelos seus caminhos? Vou sair de casa todo dia pra trabalhar e vou andar pela cidade olhando pelos lados, bestificada com tanta beleza? Sinto saudade dessa sensação. Do charme e do caos vivendo juntos, como conheci em Barcelona. 
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Dizem que não importa a cidade aonde você mora, desde que você esteja feliz. Eu não estava muito feliz quando morei no Jaraguá e também passei boa parte do tempo muito triste em Barcelona, mas não era a mesma coisa... sinto saudades do Gaudi, sinto saudade do metro velhíssimo, sinto saudade daquele sol, que não brilha do mesmo jeito em nenhum lugar do mundo. Sinto saudade do Parc Güell, ao lado de casa, sinto saudade daquele café meio tosco da Avenida Vallcarca, sinto saudade do dono do café, que um dia me deu um chaveiro com o logo do café! Sinto saudade da Calle Verdi, do cinema, dos bares nas praças, da Passeig de Gracia. 
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Sinto muita saudade. Ninguém é o mesmo depois de viver em Barcelona. Fato.
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Vamos lá, França. Big challenge. Quero ver você me fazer apaixonar. 

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