sábado, 21 de janeiro de 2012

pensar, meu remédio é pensar

Acredito que a gente não escolhe os livros que lemos. Os livros escolhem a gente. "Hum, agora eu quero ser lido por você", ou "Não, não, ainda não tá na hora, volta depois". Já tinha ouvido falar, como pessoa de bom coração que eu sou, sobre A Vida do Espírito, a última obra da Hannah Arendt ainda em vida, aliás, ela faleceu sem terminá-lo. (enquanto tanta gente por aí vive a toa..). Cheguei a folhear o livro anos atrás, na Livraria Cultura, a disneylandia das pessoas de bom coração, passei horas lendo o capítulo "as atividades mentais no mundo de aparências", bestificada como a Hannah Arendt consegue falar sobre os temas mais cotidianos ever citando todos os filósofos do universo com a mesma propriedade que eu cito músicas dos Beatles. Mas o livro custava quase 100 reais, então né, eu não comprei. Em Barcelona, na época que eu queria estudar filosofia por lá, encontrei o pequeno por 15 euros, então né, daí eu comprei. Daí eu tentei ler, comecei pelo prefácio da editora, que foi uma amiga da Hannah Arendt e também quem compilou os rascunhos deixados pela mestra para fazer o livro. Então eu me senti muito, muito burra. Tipo, nem o prefácio dava pra entender. Porque era difícil e também porque estava em espanhol, e eu não entendia nada de espanhol, sempre tive problemas sérios de ler em espanhol. Terminei a duras penas o prefácio, abstraindo sonelemente todas as partes que eram difíceis, e com a mesma solenidade deixei o livro pra depois. 
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De todos os livros que fui acumulando entre a estada na Espanha e no Brasil, A Vida do Espírito foi o único que trouxe comigo. Enquanto muita gente tem uma relação matrimonial com os livros, eu gosto de deixar os meus por aí. Deixei dezenas quando parti do Brasil pela primeira vez, deixei uma dezena quando parti do Canadá, deixei uns 5 em Barcelona, e outros 10 na minha última temporada no Brasil. Porque eu acredito que, se eu fosse um livro, eu gostaria de ser lido e relido por muita gente, então eu tento satisfazer as necessidades dos meus. E o que é precioso não é o que está nos livros, e sim o que dos livros fica dentro da gente. Então, nessa lógica, o exemplar de A Vida do Espírito que eu levo comigo provavelmente vai ficar de herança pra alguém. 
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A Vida do Espírito é sobre nossa capacidade de pensar, e aonde o pensamento nos leva, e como encaixamos o pensamento na nossa vida. É também aonde a Hannah Arendt amarra toda a sua obra, a questão do antisemitismo, dos estados totalitários, da condição humana, da banalidade do mal. 
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Los esteriotipos, las frases hechas, la adhesión a lo convencional, los códigos de conducta estandarizados cumplen la función socialmente reconocida de protegernos frente a la realidad, es decir, frente a los requerimientos que sobre nuestra atención pensante ejercen los acontecimientos y hechos en virtud de su existencia. Si siempre tuviéramos que ceder a dichos requerimientos, pronto estaríamos exhaustos. La única diferencia entre Eichmann y el resto de la humanidad es que él pasó por alto todas esas solicitudes. (Hannah Arendt, La Vida del Espíritu).
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Pensar cansa, pensar é uma merda. Mas ainda é o único meio de tornarmos pessoas melhores, mais felizes, e de fazer os outros mais felizes também. É o único meio de existirmos, de sobreviver. "Nunca hacía más cuando nada hacía, y nunca se hallaba menos solo que cuando estaba solo" (Numquam se plus agere quam nihil cum ageret, numquam minus solum esse quam cum solus esset). Suponiendo que Catón estuviera en lo cierto, las preguntas son obvias: que "hacemos" cuando no hacemos nada sino pensar? Dónde estamos cuando, normalmente rodeados por nuestros semejantes, no estamos con nadie más que con nosotros mismos?. (Hannah Arendt, La Vida del Espíritu).
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Se eu não posso evitar pensar, pensar é o meu único remédio, porque pensar me leva a sonhar, sonhar me leva a ter esperança, ter esperança me leva a querer viver, querer viver me leva a pensar em como viver melhor, viver melhor me faz ser feliz, e ser feliz me faz querer viver, e querer viver é a única coisa que torna a minha existência possível. Porque se fosse o mundo, olha, eu já tinha pedido pra descer desse trem. 


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