Nem foi tanto tempo assim, mas quase dois anos de IBM me fizeram aprender um pouco sobre o tema da "motivação" e, sobretudo, a detesta-lo. Mas também me renderam grandes momentos, como quando o Henrique, meu então gerente na época, reuniu seus funcionários para passar um desses vídeos motivacionais. Não me lembro bem do vídeo, mas lembro que, dado momento, o palestrante faz uma metáfora futebolística, dizendo que, se um jogador não faz gol, ninguém vai prestar atenção nele. Agora, se um jogador começa, vamos dizer, em um time pequeno, que ninguém conhece, e daí o cara é fodasso, marca todas, ele chama atenção. Jogando num time pequeno, obviamente o salário desse jogador não é o mesmo do Messi. Mas não é por isso que ele não vai se esforçar e marcar gols, porque assim, ele vai chamar a atenção de outro time maior, que paga mais. Ou seja, o recado era: se o seu salário é uma merda, não se acomode! Se esforce mais, trabalhe mais e mais e mais, porque assim você vai fazer a diferença, vai chamar atenção e vai subir na vida. A-ham.
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O recado por si só já era uma merda, e pra abrilhantar o momento, meu gerente comenta: se um jogador não marca gols, ele vai ser demitido ou promovido? Se o time não vai bem, o jogador vai subir na carreira ou não? E nesse momento aonde minha capacidade de ouvir besteiras atingia seu ápice, o João Gabriel manda: se o time não vai bem, o técnico é demitido... né?
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Ou seja, em minha defesa venho a dizer que não, não me interesso por palestras motivacionais e olha que, eu já tive tantas na IBM que, se houvesse a mínima chance de eu me interessar por elas, já teria acontecido. Porque nenhum desses discursos motivacionais coloca a pergunta básica: você está feliz aqui? O que você quer da vida? O que te dá prazer, o que te faz feliz? Quando na verdade, essas palestras deveriam começar assim: "você trabalha aqui há mais de 6 meses? todo o dia quando você acorda você pensa: "ai que merda, tenho que ir praquela merda"? Então faça um favor a si mesmo: peça demissão e vá fazer o que você gosta". O problema é que, se alguém faz isso na IBM, por exemplo, não sobra gente. Sério. E boa parte dos que sobram não conseguem juntar lé com cré.
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O vídeo abaixo é um pouco diferente. Apesar do espanhol rápido e embolado, e das quase duas horas de duração, vale a pena. O palestrante, Emilio Duró é um economista, super especializado em palestras motivacionais, e o que mais me chamou atenção é que ele coloca justamente isso, se o sujeito não está feliz trabalhando aonde está trabalhando, não importa o quão difícil seja, mas ele tem que sair dali. Se o sujeito não está feliz no casamento, não importa o quão difícil seja, mas ele tem que sair dali. Porque tristeza mata, e mata de um jeito lento e doloroso. Começa com dor nas costas, passa pela dor de cabeça, chega na depressão, tortura um pouco mais, até você atingir o mal de alzheimer. Quanto mais você resite, mais você sobrevive, e mais você sofre. Não resista, seja feliz. Não tome café pra terminar o seu trabalho, mude de trabalho. Não durma no sofá, peça o divórcio.
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Algumas coisas da apresentação eu realmente não concordo, essa mania de economista de provar tudo com números, ou essa mania das pessoas de acreditarem em números, essa coisa do "está estatisticamente comprovado que", oi? Eu não sou uma estatística, os meus sentimentos não são uma estatística. Dado momento ele coloca que "está estatisticamente comprovado" que mulheres que têm filhos são mais felizes. Oi? Ele até pede desculpas, rapidamente, aos intelectuais, e insiste no ponto: "você - ele pergunta a uma mulher da platéia, você tem filhos? Sim? Seus filhos são o que mais te faz feliz na vida, não é verdade?". Oi? Esse é um argumento que eu não suporto, como mulher. Porque é um problema se uma mulher não tem filhos, seja porque ela não queira ou seja porque ela não pode? Porque não é um problema se um homem não tem filhos, seja porque ele não quer ou porque ele não pode? Né?
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O sujeito também passa boa parte da apresentação tentando mostrar como a genética controla nossa vida, embora às vezes faça algumas concessões, colocando que se muito do que somos vêm a partir da genética, muito também vêm do que aprendemos ao longo da vida. Eu faria exatamente o oposto, porque eu acredito que muito do que somos vêm do que aprendemos ao longo da vida, embora algumas coisas que temos que lidar nos acompanhem desde os genes. Eu nasci míope, e toda minha família, paterna e materna e nuclear, apresenta casos gravíssimos de depressão. Nem a miopia e nem a depressão me definem, apesar de ambas terem sido coisas bastante incômodas com as quais eu tive que aprender a lidar.
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O que realmente me seduziu na apresentação foi a força com a qual o sujeito imprimiu ao defender: tristeza mata. Porque tristeza mata. Porque a cada dia que acordamos esperando por uma merda dia, não é apenas uma merda de dia que vamos enfrentar, não é um dia a menos no nosso conjunto de dias felizes, são dois. Cada dia de merda tira a felicidade do dia em si e de um dia a mais. A tristeza enfraquece, paralisa.
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O sujeito vai além, e coloca que boa parte da crise econômica mundial vêm de pessoas que acordam todos os dias sem saber porquê. De pessoas que não enfrentam a realidade, que mascaram a sua tristeza sob a desculpa de que "é assim mesmo", quando na verdade não precisa ser. De pessoas que simplesmente não têm vontade de fazer nada melhor, que vivem um mês inteiro esperando pelo próximo mês.
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O que me lembra do problema da utopia, do ser feliz um dia, do ser feliz no futuro. A felicidade no futuro não existe. Não estou 100% segura de que a felicidade existe, mas se ela existir, necessariamente, é no tempo presente.
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A gente tem que ter um motivo (ou mais) pra acordar a cada dia. E temos que ser gratos a esse motivo. E temos que honrá-lo.
Algumas coisas da apresentação eu realmente não concordo, essa mania de economista de provar tudo com números, ou essa mania das pessoas de acreditarem em números, essa coisa do "está estatisticamente comprovado que", oi? Eu não sou uma estatística, os meus sentimentos não são uma estatística. Dado momento ele coloca que "está estatisticamente comprovado" que mulheres que têm filhos são mais felizes. Oi? Ele até pede desculpas, rapidamente, aos intelectuais, e insiste no ponto: "você - ele pergunta a uma mulher da platéia, você tem filhos? Sim? Seus filhos são o que mais te faz feliz na vida, não é verdade?". Oi? Esse é um argumento que eu não suporto, como mulher. Porque é um problema se uma mulher não tem filhos, seja porque ela não queira ou seja porque ela não pode? Porque não é um problema se um homem não tem filhos, seja porque ele não quer ou porque ele não pode? Né?
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O sujeito também passa boa parte da apresentação tentando mostrar como a genética controla nossa vida, embora às vezes faça algumas concessões, colocando que se muito do que somos vêm a partir da genética, muito também vêm do que aprendemos ao longo da vida. Eu faria exatamente o oposto, porque eu acredito que muito do que somos vêm do que aprendemos ao longo da vida, embora algumas coisas que temos que lidar nos acompanhem desde os genes. Eu nasci míope, e toda minha família, paterna e materna e nuclear, apresenta casos gravíssimos de depressão. Nem a miopia e nem a depressão me definem, apesar de ambas terem sido coisas bastante incômodas com as quais eu tive que aprender a lidar.
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O que realmente me seduziu na apresentação foi a força com a qual o sujeito imprimiu ao defender: tristeza mata. Porque tristeza mata. Porque a cada dia que acordamos esperando por uma merda dia, não é apenas uma merda de dia que vamos enfrentar, não é um dia a menos no nosso conjunto de dias felizes, são dois. Cada dia de merda tira a felicidade do dia em si e de um dia a mais. A tristeza enfraquece, paralisa.
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O sujeito vai além, e coloca que boa parte da crise econômica mundial vêm de pessoas que acordam todos os dias sem saber porquê. De pessoas que não enfrentam a realidade, que mascaram a sua tristeza sob a desculpa de que "é assim mesmo", quando na verdade não precisa ser. De pessoas que simplesmente não têm vontade de fazer nada melhor, que vivem um mês inteiro esperando pelo próximo mês.
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O que me lembra do problema da utopia, do ser feliz um dia, do ser feliz no futuro. A felicidade no futuro não existe. Não estou 100% segura de que a felicidade existe, mas se ela existir, necessariamente, é no tempo presente.
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A gente tem que ter um motivo (ou mais) pra acordar a cada dia. E temos que ser gratos a esse motivo. E temos que honrá-lo.
Fucking perfect!
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