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| E não seria bem mais legal assim? |
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Dá pra acreditar que existe um cinema que o ingresso custa um dolar? Que a pipoca custa um dolar, que a coca-cola custa um dolar, que o chocolate custa um dolar? Bom, eu não tenho carro, e jamais terei um, porque não curto carros, mas só pra constar, o estacionamento é de graça. Naturalmente, o Dolar Cinema é um dos meus lugares preferidos de Montreal. Agora, o mais inacreditável: lá todo mundo fala inglês, e com um sotaque super forte, ou seja, a galera que freqüenta o cinema é anglófona mesmo, tipo roots. Todos os filmes são em inglês, e sem sequer legenda em francês! Bom, nenhuma surpresa se a gente considerar que o Canadá é um país bilíngüe, e que o Quebec, o estado francês, é pedacinho de terra perdido entre o gigante Canadá e o gigante Estados Unidos. Mas a coisa do idioma, a luta pela sobrevivência do francês, aqui no Québec é super forte, existem uma série de leis, as escolas públicas são em francês, os anúncios precisam necessariamente ser em francês, e se tiver alguma coisa em inglês, deve ser em tamanho menor, com necessariamente mais destaque para o escrito em francês.
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Essa luta não é minha; pessoalmente não me importo muito se o francês vai ou não morrer dentro do Québec. Mas acho a luta válida, acho que se a maioria das pessoas quer falar francês aqui (oi, democracia!), tá feito, nenhum problema. Como historiadora, acho não apenas válida, mas importante, a iniciativa de se lutar pelo lugar da memória, e os quebecois fazem muito isso por aqui. Eu só acho que a coisa toda deveria ser um pouco mais pacífica. Tem muita gente que fala inglês aqui, mas se recusa a falar inglês porque em Montréal a língua oficial é o francês. Oi? O idioma oficial do Brasil é o português, mas se alguém vinha falar comigo em inglês, eu não me sentia ofendida. Existem uma série de termos no nosso cotidiano brasileiro que vêem do inglês, e tem gente que fica horrorizada com isso, eu sinceramente não entendo. Porque eu tenho uma coisa clara: a cultura a gente não controla. Então, enquanto houver um montão de gente querendo falar francês no Québec, não, o francês não vai morrer. Eu acho que o francês nunca vai acabar no Québec, mas não por causa das leis, das pessoas que se recusam a falar inglês, das pessoas que querem ver o Quebec independente, das pessoas que acham que todos os english speakers devem desaparecer da face do Quebec. Eu acho que o francês não vai morrer porque tem muita gente que gosta de falar francês aqui, tem muita gente que tem orgulho de falar francês, só por causa disso.
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Se leis fossem suficientes pra estabelecer uma cultura, o catalão teria morrido na Catalunha há muito tempo, depois de décadas e décadas da ditadura do Franco ter proibido qualquer suspiro que seja em catalão. O que aconteceu por lá foi exatamente o que eu acabei de colocar: muita gente queria continuar falando catalão, e então eis que, mesmo depois de mais de meio século sem ser usado publicamente, o catalão ressurge tão forte como antes. Ou até mais.
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Pra não citar o caso de Israel, que no nada fez ressurgir o hebraico, idioma "morto" há séculos. Porque o hebraico renasceu? Porque muita gente estava a fim de falar hebraico, oras.
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A formação de uma tradição é sempre um ato arbitrário, eu sei. Deus, se ele existir, não criou um país chamado Itália, um país chamado Portugal e outro chamado Inglaterra. Dado momento, alguém parou e disse: "Opa, isso aqui tudo vai ser Alemanha". Em geral, era pouca gente que decidia pelo resto. Toda a galera que vivia no que a gente chama hoje de Brasil, tava cagando e andando pro Tratado de Tordesilhas. Às vezes, muita gente não concordou com as linhas dos mapas que foram brutalmente traçadas, vide o Muro de Berlim. Mas por motivos um tanto quanto subversivos, a cultura de cada lugar, de cada grupo de pessoas, toma seu rumo, que é muito mais caótico do que arbitrário.
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Eu acho que o mundo ainda não entendeu uma coisa básica. Fazer parte do mesmo país significa partilhar de muitas coisas, mas não de tudo, e isso muito longe de ser uma coisa ruim, é uma coisa que enriquece, que fortalece. O fato de Santos e Salvador serem duas cidades brasileiras, fazem de cada santista e de cada soteropolitano um pouco mais capazes de entender e de partilhar tradições completamente diferentes. Imagina se todo Brasil fosse São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Espírito Santo, Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul? (Como muita gente sonharia, aliás). A gente teria, pra começar, o Serra como presidente. Talvez sobrasse mais dinheiro pra gente, a União paga uma conta cara pelos estados lá de cima, mas e daí? Tipo, a economia é razão e princípio pra tudo? Oi? Pensar em termos econômicos dá super certo mesmo, tipo Estados Unidos. Cada um por si nunca deu errado, né?
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Fico pensando, se na Catalunha todo mundo falasse catalão e o se o castellano fosse proibido (uma ditadura às avessas?), como creio que muita gente por lá gostaria, ninguém seria bilíngüe. E lá, todo mundo é bilíngüe, todo mundo nasce sabendo falar dois idiomas completamente diferentes. A cada idioma que se aprende, um universo a mais se ganha. Se em Montreal todo mundo falasse francês, e só francês, se até um "Oh my God!" fosse proibido, Montreal não seria a explosão cultural que é, não abrigaria tantos artistas, tantos intelectuais, tanta gente diferente junta. Todo mundo falaria só francês e pronto. E se eu tivesse crescido num Brasil que fosse apenas o Sul e o Sudeste? Meu ouvido seria, certamente, menos treinado a compreender uma grande amplitude de sotaques.
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O mundo já é tão separado, porque a gente não pensa em termos de juntar tudo ao invés de separar ainda mais? Todo mundo junto, gente. Vai dar certo assim, vai por mim.




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