Estou um dia atrasada, o dia mundial da luta contra a AIDS foi ontem, e não hoje. Também não estou segura em dizer "AIDS", não sei se o termo politicamente correto é HIV, apesar de nem precisar saber de definições pra achar o termo "aidético" deplorável, mas acho que já tem algum tempo que não o escuto mais. Porque, se uma pessoa tem câncer, a gente não a chama de "cancerígena", certo? Porque é absurdo rotular alguém a partir de uma doença, como começou a ser feito nos anos 80 e começo dos 90.
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Mas não sei se eu não escuto mais o termo "aidético" porque avançamos nesse sentido, ou se é porque não falamos mais no assunto. Se você também percebeu que o tema da AIDS diminuiu consideravelmente nos debates sociedade afora, imagina eu, que nasci em 1982 em Santos, que no começo dos anos 90 era a capital da AIDS no Brasil? Quando eu tinha uns 10, 12 anos, freqüentemente escutava que filho de fulano estava com AIDS, que outro tinha morrido, que outro estava muito mal, pessoas que eu conhecia, ainda que indiretamente. Mesmo criança, mesmo meus pais tendo uma fobia absurda de falar de sexo decentemente comigo, eu era bombardeada pelo tema o tempo inteiro, por mais que eles quisessem evitar, por toda a cidade esse era o principal assunto. Mas, de repente, não se fala mais nisso. Morre Fred Mercury, morre Renato Russo, Cazuza, mais meia dúzia de atores famosos, filmes são feitos, centenas de campanhas, na TV, em outdoors, por toda a parte. E, de repente, nada.
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Posso estar bastante enganada, mas acredito que a minha geração cresceu com um medo terrível da AIDS, um medo muito bem vindo que não se vê mais por aí, porque ninguém mais morre. É fácil conseguir remédios. Não existem efeitos colaterais. Eu também acreditava nisso, e olha que eu pelo menos me julgo uma pessoa muito mais bem informada que boa parte da população. Só ontem eu li algumas coisas falando sobre efeitos colaterais da medicação que sim, existem, e são bastante complicados.
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Mas é claro que a medicação hoje é infinitamente melhor do que em 1996, quando o Renato Russo decidiu parar de tomar os remédios porque não agüentava mais passar o dia inteiro vomitando e com dores terríveis. Mas porque ninguém fala que efeitos colaterais ainda existem, como a lipodistrofia? A lipodistrofia aparece em pacientes tratados com medicamentos anti-HIV, e se caracteriza por sobrepeso em áreas específicas do corpo, enquanto pernas e braços ficam mais finos, o sobrepeso aparece na parte de trás do pescoço (uma corcunda de búfalo), no peito (em homens e mulheres), debaixo do queixo ou em outras áreas. Ainda não se sabe exatamente o que causa a lipodistrofia, o que torna difícil o seu combate. E existe um medo enorme nos portadores da doença de rejeição social, de quando alguém nota essas mudanças do corpo, de serem estigmatizados como a anos atrás quem emagrecia muito já era condenado a morte. Mas isso simplesmente não é falado. Existe um enorme senso comum de que não existem efeitos colaterais a medicação. (mas todo mundo sabe o que o cigarro causa, né Drauzio-Mala-Varela? O que é mais importante, lutar por um Brasil sem cigarro ou por um Brasil sem AIDS?).
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E acho que mesmo a minha geração, a geração dos que nasceram junto com o advento da AIDS, também andou se esquecendo. Bom, eu pelo menos andei me esquecendo, e caí em erros ridículos como não transar com um desconhecido sem camisinha, mas se eu conhecer a pessoa, e saber que a pessoa é legal, então tudo bem, daí eu topava de boa transar sem camisinha. Oi?
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Então eu tinha um namorado, pensávamos em nos casar. Sempre transamos de camisinha. E um belo dia ele me perguntou se eu já tinha feito teste de HIV, e eu me dei conta de que sim, a 10 anos atrás, na primeira vez que transei sem camisinha, com uma "pessoa-conhecida-legal", lógico, e morri de medo de ter pegado AIDS, então fui pro HC da Unicamp doar sangue, porque eles fazem a análise do sangue e te enviam depois. E contar isso agora me soa mais absurdo, eu estava na universidade, deveria (supostamente) ter mais consciência dos meus atos do que quando adolescente, mas não. Ali eu perdi o medo, e não pensava mais que se eu transasse com alguém conhecido e legal eu poderia pegar AIDS. Mas não abria mão da camisinha para desconhecidos casuais. (oi?).
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E quando meu namorado me fez essa pergunta, meu mundo caiu. Porque eu estava tão apaixonada, queria tanto ficar com ele, e tudo o que eu podia pensar era: "e se eu tiver AIDS e um dia a camisinha estourar, e se de alguma forma eu passasse pra ele?", eu queria morrer. Pensei que não poderia ter filhos, pensei que viveria o resto da vida presa a remédios, justo eu, que tenho pavor de médico, pavor de tomar remédio. (Só remédio pra dormir que é bom pra caralho, #rivotrilfeelings). E olha que eu nem sabia dos efeitos colaterais.
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Meu namorado foi incrível, me apoiou o tempo inteiro, também topou em fazer o teste. Dizia coisas do tipo: "eu prefiro nadar de sunga no oceano do que pelado numa piscina" - sendo eu o oceano e a piscina toda as outras mulheres da humanidade, me assegurava que se eu tivesse alguma coisa, continuaríamos juntos, ele me apoiaria, como em qualquer outra adversidade que tivéssemos ao longo da vida. Aliás, como ele faz até hoje, mesmo não estando mais juntos. Ele é simplesmente a melhor pessoa que já tive a sorte de conhecer. Eu demorei meses até ter coragem de fazer o teste, e continuamos transando com camisinha, ele até entendeu quando eu surtei dizendo que não queria mais transar nunca mais, porque tinha medo. (Tudo bem que esse medo durou só dois dias, depois voltamos a transar loucamente, com camisinha, claro).
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Um belo dia, resolvi fazer o teste. Não consegui dormir na noite anterior. Passei horas, pela madrugada, conversando com o Renato, um amigo muito querido, e super engajado na questão da luta contra a AIDS. Ele foi um fofo, um super amigo, e também me explicou outras coisas que eu não sabia, como por exemplo a existência de outras doenças venéreas bastante perigosas e que não se manifestam, como uma que não afeta o homem, mas impede a mulher de ter filhos. (me esqueci o nome, juro que vou procurar!).
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No dia seguinte, às 8:00, sem dormir, fui a um posto do SUS em São Paulo, em Pirituba, com uma amiga. Eu estava aterrorizada, e a Naiá, grande amiga, segurou na minha mão o tempo todo.
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Por toda a cidade de São Paulo existem dezenas de CTA's, (Centro de Testagem e Aconselhamento), como esse de Pirituba. Achei super bacana a descrição; pelo menos no caso do posto do SUS em Pirituba, o CTA é super discreto, é uma portinha com uma singela placa: CTA. O atendimento foi super rápido, eles pedem a carteirinha do SUS, e se você não tiver, como no meu caso, faz na hora, é só levar RG. E o número de inscrição que eles te dão é valido para toda a rede do SUS, no Brasil inteiro, para qualquer atendimento posterior. (mais informações no site da prefeitura).
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Eles fazem (grátis, óbvio), testes de HIV, herpes, sífilis e as hepatites. Você telefona um dia antes, e pode agendar o atendimento já pro dia seguinte. O processo começa com um atendimento com uma psicóloga, que explica como tudo funciona. O teste de HIV fica pronto em no máximo meia hora, os outros ficam pronto em 20 dias. Foi a meia hora mais longa da minha vida. Foram 20 minutos, na verdade, mas que pareciam uma vida inteira. O resultado é dado pela psicóloga, e depois se segue mais um atendimento.
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Não, eu não tenho nada. Mas poderia ter. E tive, de certa forma, pelos meses que me foram necessários pra tomar coragem e encarar o teste. Assim como talvez um dos meus amigos tenha e não saiba. Porque gente, quem nunca transou sem camisinha que atire a primeira pedra. Vai ter muita mão e pouca pedra.
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Assim como ter consciência do fato de que a AIDS ainda existe no mundo, é preciso também ter coragem e enfrentar esse fato. Se preparar psicologicamente, falar com amigos, encarar o fato com lucidez e ir fazer o teste. Nos meses que eu levei até decidir fazer o teste, ficava procurando na internet informações, como quanto tempo leva pra doença se manifestar, em quanto tempo a pessoa pode morrer se não se medicar, coisas absurdas porque, na verdade, cada caso é um caso, mas no meio da minha paranóia qualquer espinha já era sintoma da AIDS. Uma dica: não façam o mesmo que eu. Passei inúmeras noites sem dormir por besteira.
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Eu entendo (e como!) que é bastante difícil tomar coragem pra fazer o teste, ainda mais quando a pessoa gosta muito de sexo (como eu) e já deu motivo pra se preocupar (como eu e boa parte da população mundial). O que ajuda na preparação é conversar com amigos, com pessoas que apóiam a gente, com gente decente, cabeça aberta e bom coração. Se sentir amado e querido é fundamental pra agüentar a possibilidade de um resultado positivo.
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Antes de transar sem camisinha, faça o teste, peça pro namorado(a) fazer também, façam juntos. Se decidirem por transar sem camisinha depois, dentro de uma relação monogâmica, certifique-se que, em caso de pulada de cerca, ela será com camisinha. A hora de falarmos de AIDS não é hora pra hipocrisia, é hora de sermos honestos, sinceros, conscientes e preocupados não em considerar ou não a possibilidade de traição, porque claro que um relacionamento monogâmico exclui a possibilidade de traição. Mas então, como é que a AIDS cresce entre mulheres monogâmicas e casadas? A hora de falarmos de AIDS é um momento de se preocupar com a doença, com a possibilidade da doença, é muito maior do que o tema da traição. E precisa ser tratado com maturidade e honestidade por ambas partes. E a melhor hora pra falar de AIDS é no começo do relacionamento.
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