domingo, 27 de novembro de 2011

viver é muito perigoso

Minha primeira tatuagem foi meu dragão, no pé direito, a considerável tempo atrás, alguma coisa como 2004 ou 2005. Foi a primeira tatuagem e, claro, a que mais doeu. Tatuar o pé inteiro é a pior dor possível. A sensação é de uma faca quente e extremamente afiada arrancando paulatinamente toda a pele do pé. A sensação nos dias seguintes é a de ter enfiado o pé numa lareira e deixado lá por umas duas horas, não é que o negócio arde, o negócio queima o tempo inteiro. Mas eu gostei muito do meu dragão, gosto muito dele, adoro pensar sapatos e cores pras unhas do pé que combinem com ele. É quase meu animalzinho de estimação. E tampouco a dor surreal do seu nascimento me fez evitar tatuagens; depois dele, seguiram-se outras 5 que, como ele, são repletas de significados e de histórias - eu realmente aprecio a arte da tatuagem. Quem me pergunta o significado desta ou daquela tatuagem sempre escuta como resposta: "Você tá com tempo agora?", porque nenhum risquinho nesse corpo aqui é banal.
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Mas se alguém me perguntasse se eu faria a tatuagem de novo, a do dragão, talvez eu sinceramente respondesse que não, por um singelo motivo: doeu demais. Me orgulho do resultado, que me faz feliz pra caramba, não me arrependo de tê-lo feito, mas não, não faria de novo. Doeu demais.
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O que me faz pensar, aonde é que eu estava com a cabeça quando decidi tatuar um dragão no pé? O lugar do corpo que todo mundo sabe que dói horrores? A segunda tatuagem, uma rosa dos ventos no braço esquerdo, demorou dois anos depois do dragão pra ser concebida, porque eu achava que toda tatuagem doía aquele tanto. A segunda tatuagem não doeu nada. Nadica de nada. Parecia que o tatuador estava arranhando, docemente, meu braço. Uma unhada de gato teria doído mais. 
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animal arisco, domesticado esquece o risco...
E quando eu penso aonde é que eu estava com a cabeça quando decidir tatuar um dragão do pé, automaticamente vêm a minha mente questionamentos parecidos, sobre diversos momentos aonde eu fui lá, completamente consciente da dor inerente ao processo, mas mesmo assim eu fui lá, com todo esse 1.55m de pura coragem e mandei ver: senhor tatuador, eu quero um dragão no meu pé direito. 
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De todas as formas, eu sempre fui até o final, mesmo ferida, sufocando meu gemido, com direito até a roupas e sonhos rasgados na minha saída. E acho que nunca consegui, de verdade, me arrepender de nada. Mas algumas coisas eu simplesmente não faria de novo. 
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Acho que a gente vai ficando mais velho, acho não, a gente vai ficando mais velho e vai ficando mais cagão. A gente vai ficando mais velho e entende o que o Rosa quis dizer por "viver é muito perigoso". Cara, viver é perigoso pra caramba! De repente a gente acorda e pensa: fiz merda. Fiz merda grande. De repente a gente acorda no meio da noite e dói pra caramba. E pior, de repente a gente se pega pensando: "isso não vai dar certo, não vou nem tentar ir por aí". 
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Como é possível que o benefício da experiência não destrua o benefício da impulsividade pueril? Porque a impulsividade pueril pode levar a grandes penhascos, sem dúvida, mas também nos leva a inimagináveis eventos, sem os quais a vida seria francamente insustentável.
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Cuidado brother, cuidado sábio senhor, é um conselho sério pra vocês: eu morri e nem sei mesmo qual foi aquele mês... metrô linha sete-quatro-três...

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